segunda-feira, maio 01, 2006

O que um jogo de computador pode fazer...

Quando uma criança de 3 anos, no meio de uma conversa em grupo sobre aviões, nos diz "amanhã vou ao aeroporto, vou andar de avião", expressa-nos a sua vontade de explorar o desconhecido pois é uma realidade que, neste caso, não conhece. Mas quando a mesma criança continua dizendo "o avião vai explodir e vão morrer todos!"... acreditem, é de ficar aterrorizado... Que vivência tem esta criança para tecer tamanho comentário com tão aparente normalidade?!

Ao tentar compreender o porquê desta afirmação, a criança explica que é o que acontece no jogo de computador que joga com o irmão (de 7 anos). E continua a descrever o "seu" conhecimento sobre os aviões: "pôe-se a escada para as pessoas subirem para o avião e as pessoas caiem todas"; "um pássaro vai contra o avião e o avião explode". As outras crianças estavam perplexas com o discurso do colega, que é raro fazer intervenções em grande grupo. O que fazer?! Descrevi a minha viagem de avião no verão passado e as crianças que já viajaram de avião contaram também a sua experiência. A criança ficou pensativa... mas pouco convencida.

Muito se tem escrito sobre a violência nos jogos de computador, o seu uso excessivo por parte das crianças e sem o controlo dos pais. Ora aqui está um pequeno exemplo das proporções que pode tomar. Uma visão completamente distorcida da realidade, que não nos pode deixar indiferentes e despreocupados. Espero que o projecto sobre "Viagens" lhe dê uma visão diferente do mundo e que o computador que temos à cerca de um mês na nossa sala de jardim de infância lhe permita compreender que tem outras utilidades para além deste jogos que ele conhece.

3 comentários:

R2K disse...

: )

Carlos Ribeiro disse...

Sem querer discordar, ou polemizar gratuitamente... Tenho filho (5 anos) e me preocupo com isso também. Mas veja outro lado: as crianças, historicamente, sempre foram muito mais expostas à violência, ao lado duro da vida, do que são hoje. Crianças viam seus amigos e parentes morrer de doenças que hoje são curadas facilmente. A expectativa de vida era muito menor. A violência era muito mais presente na vida social.

Lembro este contraponto para propor uma ampliação da discussão: será que não estamos blindando excessivamente as crianças da realidade? De certa forma, a realidade virtual (e a sua violência fantasiada) são substitutos para uma vivência da realidade que não existe mais. Bem ou mal, crianças manifestam interesse por coisas violentas; mesmo quando é chocante e assustador para elas, alguma coisa as atrai. Basta ver as reações de uma criança, ou adolescente, a histórias ou filmes de suspense. A violência virtual existe porque há demanda. Existe porque algo dentro de nós precisa ser amadurecido, na nossa relação com a vida e com a ética. Um entendimento do valor da vida, um entendimento do valor do "bem que vence o mal".

O que falta, na minha visão, é um senso de consequência na violência virtual. A criança pode sair com a percepção de que a violência pode sim, ser gratuita, e não ter consequências reais. Neste sentido, a falha não é da violência virtual em si, mas da falta de orientação, e da falta de exemplos bem construídos. Entendo que em um ambiente educacional correto, rico, a violência tem o seu lugar nas estórias e fantasias; é parte inerente da experiência física, é parte da "lei do mundo", da "lei do mais forte", que as crianças tem que entender para serem adultos saudáveis, equilibrados... e pacíficos.

p.s. Parabéns pela iniciativa do blog... achei por acaso, mas gostei do que li.

Rute disse...

Olá Carlos. É um prazer receber a sua visita.

Na minha opinião não podemos nem devemos esconder das crianças que a violência existe, sempre existiu e que continuará a existir. No entanto, penso que devemos acompanhá-los neste percurso para que não fiquem com uma visão distorcida de realidade.

As crianças são detentoras de uma opinião própria que são fruto das suas vivências e experiências. Assim vão construindo o seu conhecimento do mundo em que vivem.

Ao escutar o que pensam, conversar com elas, respeitar as suas ideias e pensamentos conseguimos ter uma visão mais informada sobre elas próprias.

Nesta história toda, fico feliz por a criança ter encontrado um espaço junto de mim e dos colegas para dizer o que pensava e ter contacto com outras visões diferentes da dele.